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Lágrimas de Crocodilo

No último dia 14 de fevereiro, a Microsoft publicou uma carta aberta reclamando da forma como a empresa vem sendo tratada no seu esforço de promover a interoperabilidade tão solicitada por todos.

Afinal, se a adoção de padrões é uma coisa tão boa, porque tanta reação contra a proposta da Microsoft? E mais, porque a Microsoft tenta, a qualquer custo, ganhar a simpatia de todos?

A verdade encontra-se nos números.

O modelo de negócios da Microsoft é baseado na venda e substituição de produtos. Para este modelo se sustentar é necessário conquistar novos clientes e fazer com que os atuais comprem novos produtos em substituição aos anteriores. É por este motivo que há tanto estardalhaço quando é lançada uma nova versão de qualquer produto Microsoft. É preciso convencer você, o consumidor, a comprar a nova versão. Mesmo que a atual que é usada a tanto tempo atenda plenamente as suas necessidades.

Para manter esta clientela cativa, necessária para manter o modelo de negócios, criou-se uma forma engenhosa de “aprisionamento” não através do software mas do arquivo de saída. Hoje temos uma base imensa de arquivos gerados pelo MS-Office que somente o próprio MS-Office consegue exibir com fidelidade. (Sim, temos avançado bastante neste quesito com o BrOffice.org mas mesmo assim, sempre há alguma coisa que algum usuário usa que não conseguimos tratar adequadamente). Migrar esta base para qualquer outra plataforma representa um custo para os atuais clientes da Microsoft. Um custo que foi criado, artificialmente, pelo próprio modelo de negócios usado por aquela empresa.

Até hoje, este modelo tem resultado em sucesso. Apesar de menor que nos anos anteriores, o faturamento da divisão Information Worker, da Microsoft, onde o MS-Office é produzido, foi de 11 bilhões (isso mesmo bilhões) de Dólares em 2005.

Decididamente, é um mercado que ninguém gostaria de perder.

E é aqui que está o problema. Ao propor uma especificação desnecessariamente complexa, que afronta o bom senso e muitos padrões internacionais estabelecidos (veja a questão do calendário sobre a qual já escrevi) e que somente ela conseguiria implementar em sua totalidade, a Microsoft, mais uma vez, tenta preservar o seu modelo de negócios. A conseqüência disso é que, mais uma vez, migrar para qualquer plataforma não Microsoft após a adoção do Office Open XML será um processo caro e demorado.

Para manter o modelo, é necessário que a empresa passe a se comportar de forma exemplar: promovendo a interoperabilidade, promovendo padrões, realizando parcerias com distribuidores de Software Livre. A lista de ações que a Microsoft vem adotando é bastante extensa.

Não se iludam. Apesar de todo o aparente bom-mocismo, a Microsoft continua defendendo o seu ganha-pão. A especificação Office Open XML se destina exclusivamente a manter cativa uma clientela que já começa a dar sinais que não vai continuar a aceitar esta imposição por muito mais tempo. E por isso a Microsoft tenta passar uma aura de cidadania empresarial ao tentar forçar a sua especificação como um “padrão”.

O ODF representa hoje uma ameaça ao modelo de negócios da Microsoft. Ao permitir que um padrão seja utilizado de forma transparente por qualquer aplicação, com total fidelidade de formato pois toda a especificação é publicada, o padrão ODF/ISO 26300 assegura ao usuário o direito de escolher qual o melhor software para as suas necessidades. O ODF permite que você escolha o software assegurando assim a sua liberdade.

A questão Open XML e ODF é muito maior que uma mera disputa comercial, como a Microsoft quer que acreditemos. É uma questão que fala diretamente à nossa cidadania e ao nosso direito de escolha.

Não se iluda com as lágrimas do crocodilo, ele chora ao devorar suas vítimas por mera coincidência fisiológica.

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